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Dr. Douglas Alencar – Ortopedista e Traumatologia Pediátrica em São Paulo – SP

O susto de uma queda seguido por um choro persistente é uma das situações mais angustiantes para pais e cuidadores. No entanto, do ponto de vista médico, as fraturas em crianças são eventos comuns e, na maioria das vezes, apresentam um prognóstico excelente. Isso ocorre porque o esqueleto infantil não é apenas uma versão reduzida do esqueleto adulto; ele possui propriedades biológicas únicas que facilitam a cura, mas que também exigem cuidados especializados.

Neste guia vamos explorar os tipos de fraturas em crianças mais comuns, por que os ossos dos pequenos quebram de forma diferente e como a medicina moderna garante que eles voltem a brincar o mais rápido possível.


1. O Esqueleto Infantil: Por que ele é único?

Para entender as fraturas pediátricas, precisamos primeiro entender a anatomia do crescimento. O osso de uma criança é mais “vivo” e flexível do que o de um adulto.

A Elasticidade Óssea

Os ossos das crianças possuem uma maior proporção de colágeno e são menos mineralizados. Isso lhes confere uma elasticidade que permite que o osso se dobre significativamente antes de realmente quebrar. É por isso que vemos tipos de fraturas em crianças que simplesmente não existem em adultos.

O Periósteo: A “Capa” Protetora

O periósteo é uma membrana densa que envolve os ossos. Nas crianças, essa membrana é muito mais espessa e forte. Em muitos casos de fratura, o periósteo permanece intacto em um dos lados, agindo como uma “dobradiça” natural que ajuda o ortopedista a alinhar o osso e acelera a consolidação (cura).

As Placas de Crescimento (Fises)

Esta é a característica mais crítica. Nas extremidades dos ossos longos, as crianças possuem cartilagem de crescimento. Como a cartilagem é mais fraca que o osso, as fraturas frequentemente ocorrem nessas áreas. Se não forem tratadas corretamente, podem afetar o crescimento futuro do membro.


2. Tipos de Fraturas Exclusivas da Infância

Devido à flexibilidade mencionada, as crianças apresentam padrões de fratura específicos:

2.1 Fratura em “Galho Verde” (Greenstick)

Assim como um galho verde de uma árvore se dobra e lasca em apenas um lado, o osso da criança pode sofrer uma fratura incompleta. O osso quebra em uma face, mas permanece dobrado e íntegro na face oposta.

  • Tratamento: Geralmente requer a imobilização com gesso. São fraturas inerentemente estáveis, normalmente com boa evolução

2.2 Fratura por Encunhamento ou Torus (Buckle Fracture)

Neste caso, o osso não chega a quebrar de fato, mas sofre um “achatamento” ou uma protuberância na sua camada externa (córtex) devido a uma carga de compressão (como cair com a palma da mão no chão).

  • Características: É uma fratura muito estável e a recuperação costuma ser rápida, muitas vezes apenas com o uso de uma tala imobilizadora.

2.3 Deformidade Plástica

Aqui, o osso se dobra permanentemente sem apresentar uma linha de quebra visível no Raio-X comum. O osso sofre microfraturas que permitem a curvatura.

  • Risco: Pode causar deformidades visíveis se não for corrigida, pois o osso pode não retornar sozinho à forma original.

3. Fraturas nas Placas de Crescimento: A Classificação de Salter-Harris

Quando uma fratura envolve a cartilagem de crescimento, ela é classificada pelo sistema Salter-Harris. Entender essa classificação é vital para o prognóstico.

  • Tipo I: A fratura atravessa apenas a placa de crescimento, separando a extremidade do osso do corpo do osso. O prognóstico é excelente.
  • Tipo II: A fratura atravessa a placa de crescimento e uma parte do corpo do osso (metáfise). É o tipo mais comum.
  • Tipo III: A fratura atravessa a placa de crescimento e a articulação. Requer alinhamento perfeito para não causar artrose futura.
  • Tipo IV: Atravessa o corpo do osso, a placa de crescimento e a articulação. Frequentemente requer cirurgia.
  • Tipo V: Uma lesão por esmagamento da placa de crescimento. É rara, mas tem o maior risco de interromper o crescimento do osso.

4. Locais mais Comuns de Fraturas em Crianças

Estatisticamente, certas áreas do corpo infantil são mais vulneráveis a traumas.

4.1 O Punho (Rádio Distal)

É a campeã absoluta. Crianças costumam cair com as mãos espalmadas. A fratura do rádio distal é extremamente comum e, felizmente, tem um alto poder de remodelação.

4.2 O Cotovelo (Fratura Supracondiliana)

Esta é considerada uma das fraturas mais sérias na pediatria. Ocorre na parte inferior do úmero (osso do braço).

  • Perigo: Pela proximidade com artérias e nervos importantes, o inchaço pode comprometer a circulação da mão. Muitas vezes requer cirurgia de urgência para fixação com fios metálicos.

4.3 A Clavícula

Comum em quedas de bicicleta ou durante esportes de contato. Na imensa maioria das vezes, o tratamento é conservador (apenas uma tipóia ou imobilizador em “oito”), pois a clavícula infantil cicatriza com extrema facilidade.

4.4 O Fêmur

Fraturas pediátricas no osso da coxa geralmente indicam traumas de maior energia, como acidentes automobilísticos ou quedas de grandes alturas. Em bebês, o tratamento pode ser feito com um gesso especial (Gesso Pelvipodálico); em crianças maiores, hastes flexíveis de titânio são frequentemente utilizadas.


5. Diagnóstico: O que esperar no Pronto-Socorro?

  1. Exame Físico: O médico observa inchaço, deformidade, dor localizada e a capacidade de movimentar os dedos e sentir toques (avaliação neurovascular).
  2. Radiografia (Raio-X): É o exame padrão. Em crianças, às vezes o médico solicita o Raio-X do membro saudável para comparação, já que as placas de crescimento podem ser confundidas com fraturas por olhos não treinados.
  3. Tomografia ou Ressonância: Reservadas para fraturas pediátricas articulares complexas onde o Raio-X não mostra detalhes suficientes.

6. Tratamentos: Do Gesso à Cirurgia

O tratamento de fraturas pediátricas evoluiu para ser o menos invasivo possível.

Redução Incruenta (Colocar o osso no lugar)

Muitas fraturas desalinhadas podem ser “reduzidas” sem cortes. Sob sedação ou analgesia, o ortopedista manipula o membro para alinhar os ossos e aplica o gesso imediatamente.

Fixação Percutânea

Para fraturas que não “param” no lugar apenas com gesso (como as de cotovelo), o médico utiliza fios metálicos finos que atravessam a pele e o osso. Esses fios ficam por fora da pele ou logo abaixo dela e são removidos no consultório após algumas semanas, sem necessidade de nova cirurgia complexa.

Hastes Intramedulares Flexíveis

Uma inovação que revolucionou o tratamento de ossos longos (fêmur e tíbia). Hastes de titânio são inseridas por pequenos furos, permitindo que a criança volte a se movimentar muito mais rápido do que com o antigo gesso de corpo inteiro.


7. O Processo de Recuperação e Remodelação das Fraturas Pediátricas

Este é o ponto onde a biologia infantil mais brilha. O fenômeno da remodelação óssea permite que, mesmo que um osso cole ligeiramente torto, o próprio crescimento da criança “endireite” o osso com o passar dos meses e anos.

  • Tempo de Gesso: Varia de 3 a 6 semanas na maioria dos casos.
  • Fisioterapia: Nem sempre é necessária para crianças, que costumam recuperar a mobilidade naturalmente através do brincar. É recomendada em fraturas próximas às articulações ou após cirurgias complexas.

8. FAQ – Perguntas Frequentes sobre Fraturas em Crianças

1. Como saber se o braço do meu filho quebrou ou é apenas uma batida? Sinais como deformidade visível, incapacidade de mover o membro, inchaço imediato e dor que não melhora com gelo indicam uma possível fratura. Na dúvida, o Raio-X é indispensável.

2. O gesso molhou, o que eu faço? Gessos tradicionais não podem ser molhados, pois o algodão interno retém umidade, causando infecções de pele. Se molhar significativamente, procure o hospital para a troca. Existem opções de gessos sintéticos e protetores impermeáveis, converse com seu médico.

3. Uma fratura pode parar o crescimento da criança? Apenas se a fratura atingir a placa de crescimento (fise) de forma grave (Salter-Harris tipo IV ou V) e não for tratada adequadamente. A maioria das fraturas não afeta o crescimento.

4. Crianças precisam tomar cálcio após uma fratura? Geralmente, uma dieta equilibrada é suficiente. O excesso de cálcio suplementado sem orientação não acelera a colagem do osso e pode causar outros problemas.


9. Conclusão: A Resiliência do Corpo Infantil

As fraturas em crianças são eventos marcantes na vida de uma família, mas a biologia está a favor dos pequenos. Com um sistema ósseo flexível, um periósteo forte e uma capacidade de remodelação invejável, a imensa maioria das crianças se recupera sem qualquer sequela.

O papel do ortopedista pediátrico é garantir que essa biologia siga o caminho certo, protegendo as placas de crescimento e garantindo o alinhamento funcional. Se o seu filho sofreu uma lesão, mantenha a calma: o corpo dele foi “projetado” para se curar de forma extraordinária.


Referências Médicas Sugeridas:

  • Rockwood and Wilkins’ Fractures in Children.
  • Diretrizes da Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica (SBOP).
  • American Academy of Pediatrics (AAP) – Pediatric Orthopedics Section.

Aviso de Responsabilidade: Este texto possui caráter puramente informativo e educativo. Ele não substitui a consulta médica. Em caso de trauma, procure imediatamente um serviço de pronto-atendimento ou um ortopedista pediátrico. Dúvidas? Agende sua consulta!

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